O MST foi a primeira entidade a topar um acordo com lideranças da reserva. O movimento se dispôs a treinar técnicos indígenas em suas escolas no Rio Grande do Sul e doar dez mil quilos de sementes de arroz orgânico. Em um segundo momento, a consultoria poderá ocorrer na própria reserva. Líderes indígenas negam que tenham demonstrado interesse em arrendar terras para o movimento, como se especulou durante a semana em Roraima.
A legislação proíbe o arrendamento de terras da União, como é o caso de toda reserva indígena. "O que a gente quer é parceria para transferência de tecnologia", diz a uapixana Pierlângela Nascimento da Cunha. "A lei é clara sobre isso."
Presidente da Federação Indígena, entidade que reúne nove organizações existentes em Roraima, ela afirma que as comunidades não querem fazer produção em grande escala e que o projeto do arroz orgânico, em fase experimental, será levado apenas para comunidades que demonstraram interesse e têm tradição em lavouras. A reserva é formada por 199 comunidades em diferentes estágios de contato com a sociedade nacional. "A área de arroz foi toda destruída, a terra ficou sem nada, sem benfeitorias e lavouras, o que queremos é recuperar parte do plantio para subsistência."
À exceção de Rondônia, o MST não tem força nos Estados da Amazônia Ocidental. No Amazonas, no Acre e em Roraima, o movimento busca adeptos e bandeiras. A estratégia de defender novas bandeiras deu certo no sudeste do Pará, onde o movimento viu aumentar o número de adeptos a partir de mobilizações contra a Vale. Não é a primeira vez que o MST tenta associar o nome a um local símbolo da Amazônia. Nos últimos anos, os sem-terra têm buscado parcerias com sindicalistas do antigo garimpo de Serra Pelada.
Júlio Macuxi, do Conselho Indígena de Roraima (CIR), é um dos mais entusiasmados com a parceria com o MST. Ele diz que o movimento é a única entidade com tecnologia na produção do arroz orgânico. Na avaliação do líder indígena, o MST terá a oportunidade de mostrar que não é apenas uma entidade que "fica batendo nos outros". "O MST tem tecnologia, e é isso que nós queremos."
À frente do departamento de Projetos e Convênios do CIR, Júlio avalia que o campo de expansão do MST na Amazônia está longe das terras indígenas que é de usufruto apenas das comunidades nativas. "Na Amazônia tem muito grileiro e gente sem terra e sem moradia no entorno das grandes cidades como Manaus e Belém", observa. "A publicidade do MST não vai contra os nossos interesses e direitos."
Agricultores do assentamento Capela, em Nova Santa Rita, a 50 quilômetros de Porto Alegre, já estão colhendo as sementes que serão enviadas para Raposa Serra do Sol. O MST repassará 200 sacas de 50 quilos para os índios. "Não temos a preocupação de ganhar publicidade", diz Emerson Giacomelli, da coordenação gaúcha do movimento. "É claro que temos objetivo de fortalecer o intercâmbio com eles. Mas nosso interesse principal é de ajudá-los", completa. "Isso faz parte do nosso princípio."
As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
