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"A vida é exatamente mudança".

*Armando Nogueira

O que o Brasil tem a ver com a crise argentina?

Dos países que produzem grãos em grande quantidade, a Argentina é, provavelmente, o que está sentindo mais fortemente os efeitos da crise global dos alimentos. Tudo por causa de um impasse entre os produtores argentinos e a Casa Rosada, que vem impondo restrições ao comércio internacional de grãos – numa tentativa de assegurar o abastecimento interno. Nesta sexta-feira (02), por exemplo, encerrou-se a trégua de um mês dada pelos produtores para que o governo argentino revisse questões cruciais de sua política agrícola, tais como a elevação dos impostos de exportação. Mas a trégua terminou sem definições concretas. A crise entre Cristina Kirchner e o agronegócio segue, portanto, sem solução.
A atitude argentina de impor barreiras à exportação de grãos não surpreende o consultor Silmar Müller, colunista de AMANHÃ especializado em agronegócio. “A medida de conter os preços a partir da taxação acontece inclusive no Brasil”, diz ele. A surpresa está na aparente comodidade brasileira em relação a esses acontecimentos. “Dependemos muito da Argentina para o abastecimento de trigo”, destaca Müller. O mercado brasileiro importa 6,6 milhões de toneladas do cereal por ano, em média. Desse total, 5,6 milhões de toneladas, ou 85,5%, vieram do país vizinho em 2007. Müller acredita que a situação argentina oferece um alerta ao Brasil: é preciso procurar novos fornecedores de trigo – ou cultivá-lo em terras brasileiras. “Há um projeto para incentivar o plantio no cerrado. Sairá mais caro, mas é possível”, destaca. Atualmente, a produção brasileira de trigo se concentra no Rio Grande do Sul e no Paraná.
Em março, o governo argentino impôs “retenções móveis”, isto é, impostos variáveis sobre a exportação – que variam de acordo com o preço internacional dos grãos. Müller acredita que os argentinos exageraram na dose em relação à tarifa de exportação da soja, por exemplo, que chega a ser equivalente a 44% do seu preço de venda. Hoje, a principal reivindicação do setor consiste na eliminação dessas retenções móveis, que seriam substituídas por uma alíquota fixa. A Casa Rosada sinalizou que, na próxima terça-feira (06), poderá tratar do assunto. Caso as propostas não sejam aceitas, os produtores já anunciaram que irão plantar uma área 5% menor em relação ao ano passado. (Grasiela Duarte e Ricardo Lacerda - Revista Amanhã)
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