- Robert Zoellick, presidente do Banco Mundial
Sem aderir a qualquer catastrofismo, considero bastante preocupantes os diagnósticos sobre a crise de alimentos no mundo. O diretor-geral da FAO - Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação -, Jacques Diouf, classificou de "catástrofe previsível" o cenário de escassez de alimentos caso os líderes internacionais não reajam aos alertas da Organização. No contexto da crise de alimentos, uma guerra civil é um perigo potencial para países da África subsaariana, Ásia e América Latina. Aliás, já eclodiram inúmeras agitações e distúrbios sociais relacionadas à inflação nos preços dos alimentos na Indonésia, Filipinas, Mauritânia, Etiópia e Camarões, entre outros países.
Como afirmou o secretário-geral da ONU, "esse forte aumento nos preços dos alimentos se tornou uma crise global real". As estimativas da ONU são de que aproximadamente 100 milhões de pessoas, entre as mais pobres que anteriormente não precisavam de ajuda humanitária, agora terão de ser socorridas em face de não poderem arcar com os preços de alimentos. A FAO sugeriu que a comunidade internacional conceda subsídios aos países em desenvolvimento como forma de compensar a ajuda governamental oferecida aos agricultores das nações desenvolvidas.
É importante ressaltar que as negociações para a eliminação de subsídios às exportações agrícolas se arrastam sem os avanços esperados. Os preços dos alimentos disparam, na esteira do desequilíbrio entre a oferta e a demanda e do agravamento das distorções dos mercados. Os resultados da Rodada Doha, da Organização Mundial do Comércio - OMC -, ainda são polêmicos.
A crise de alimentos, como afirmam os especialistas, não será solucionada tão cedo, considerando que suas causas estão relacionadas a motivos estruturais de difícil solução. A escassez alcança todos os grãos, carnes e lácteos. Superá-la exige o aumento da produção e da produtividade. A decisão estratégica de aumentar a produção e a produtividade esbarra em inúmeros obstáculos. Pouco se fala da elevação dos preços dos fertilizantes como fator desestabilizador da produção. Os preços médios, em março, subiram 58%, se comparados ao mesmo mês do ano anterior. Apenas no primeiro trimestre de 2008 a alta verificada foi de 25%. Não podemos esquecer que o Brasil é o 4º maior consumidor de fertilizantes do mundo e que 70% dos adubos utilizados na agricultura brasileira são importados.
No Paraná, por exemplo, o fertilizante subiu 100%, elevando o custo da produção agrícola. Entre fevereiro de 2007 e fevereiro deste ano, os produtores paranaenses chegaram a pagar, em média, 60% a mais pelos fertilizantes formulados. No caso do adubo 00-30-20 os preços chegaram a variar 100% nesse período. Eles saltaram de R$ 695,43 para R$ 1.389,89.
A crise de alimentos é uma realidade e não pode ser ignorada. O momento exige ações enérgicas e pontuais. O professor Roberto Rodrigues, ex-ministro da agricultura, destaca que os países menos desenvolvidos deveriam aproveitar o ciclo de preços altos de alimentos para estruturar seus sistemas produtivos de forma a reduzir a dependência de fatores externos.
Sabemos que é inútil pensar apenas no aumento do volume da produção. Mais do que nunca, é necessário formular estratégias de produção e de comercialização. O Brasil elevou consideravelmente a produtividade nos últimos anos, mas deixa a desejar no processo de produção em face dos elevados custos e do baixo poder financeiro dos produtores.
A falta de financiamento ao produtor é um entrave ao aumento da safra de grãos. Os números falam por si só: apenas 20% dos recursos financiados ao produtor são provenientes de bancos públicos, com taxas de 6,75% ao ano. O restante dos financiamentos (80%) é obtido à taxa de mercado, com juros estratosféricos ou junto às empresas tradings.
Em meio a teses que propagam que o século XXI será de "penúria alimentar", é importante destacar que o Brasil é detentor de um potencial para solucionar no curto prazo a crise mundial de alimentos. Podemos incorporar aos 47 milhões de hectares usados para produzir comida mais 50 milhões de hectares de pastagens subaproveitadas que possuem aptidão para agricultura de grãos. Assim, dobraríamos a área produtora de grãos e ampliaríamos em duas vezes e meia o volume da safra de alimentos, alcançando 350 milhões de grãos, sem desmatar, o que é mais importante. Esse é um projeto factível cujo autor é o ex-ministro Roberto Rodrigues.
O agronegócio brasileiro, no auge da crise mundial de aumento de preços e escassez na oferta de alimentos, incorpora novas vertentes estratégicas. O governo precisa valorizar o papel do produtor e oferecer financiamento adequado à produção.
O mundo se depara com flagrante descompasso entre a oferta e a demanda de alimentos. Há quem afirme que estamos diante de uma "nova face" da fome. No plano interno, a questão do endividamento dos agricultores permanece em aberto. A proposta tardia do Governo a ser enviada ao Congresso não atenderá às necessidades do setor. O aumento da produtividade do campo não é uma tarefa do produtor isoladamente. Cabe ao Governo agir e entrar em campo.
Artigo do senador Alvaro Dias - 2º Vice Presidente do Senado, vice-líder do PSDB
